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Ismael Caneppele

ANOTAÇÕES SOBRE UMA VIAGEM QUE NÃO FOI FEITA

Os dias tem sido dedicados à  descoberta de algo, qualquer coisa, que possa vir a ser inesquecível. por isso caminhamos tanto à procura de uma parte esquecida da cidade. uma parte que talvez contenha uma parte de nós. Uma parte que nos faça sentir saudade  e que nos faça querer voltar. turistas caminham. visitantes observam. moradores sentem. Sinto saudade de Berlim e me pergunto como estará a cidade nesse verão, do outro lado do oceano. Caminho à procura de mim, e não é mentira quando te conto que não consigo me encontrar. Ontem à tarde dormi sob o sol da Washington square enquanto te esperava. Li dois contos da Miranda July e chorei por baixo dos óculos escuros. Ninguem viu. Ninguem vê. A cidade grande implica privacidades. Não chorei pela beleza do conto, nem por estar longe de casa. não chorei porque ao lado um homem velho tocava Neil Young em um violão desafinado. Aquele homem era eu. Chorei pq fazia muito tempo que não chorava. Chorei por uma necessidade física. Assim como agora escrevo por nada além de necessidade física. Materializar sentimentos para evitar doenças, tensões ou mesmo a frustração de passar um longo período de improdutividade. Depois dormi sobre a grama quente da Washington square. Quando acordei, você estava ao meu lado, esperando eu acordar. quando eu acordei, vc me contou que aquela praça era a praça que Hopper freqüentava todos os dias e eu não quis te perguntar quem é Hopper. Depois caminhamos desesperados tentando encontrar um pedaço de nós perdido nessa ilha chamada Manhattan. E não. Não nos encontramos. Mas nem por isso não estamos gostando da viagem. (Ismael Caneppele é escritor, ator e roteirista e escreve semanalmente no Oposto de Dizer Adeus. Leia mais sobre Ismael www.texassucks.wordpress.com foto: Dan Nakagawa)